Golpe do amor: como funciona e como se proteger
Neste artigo
Ele aparece do nada, é atencioso, elogia, conversa todos os dias e parece entender você como ninguém. Em poucas semanas, fala em futuro juntos. Até que surge um problema: uma conta para pagar, uma emergência médica, um dinheiro preso no exterior. E o pedido de ajuda vem.
Esse é o roteiro do chamado golpe do amor. Ele acontece com pessoas de todas as idades, profissões e níveis de estudo. Quem cai não é ingênuo: o golpista é treinado para criar confiança e usar o afeto contra a vítima.
Neste artigo, você vai entender como o golpe funciona, quais são os sinais de alerta e o que fazer se já entregou dinheiro.
O que é o golpe do amor
O golpe do amor é quando alguém finge um relacionamento para conseguir dinheiro, bens ou vantagens. Pode começar num aplicativo de namoro, numa rede social ou até numa mensagem que “chegou por engano”.
Na Justiça, essa situação costuma ser chamada de estelionato sentimental. O nome assusta, mas a ideia é simples: a pessoa enganou você, usando o sentimento, para tirar proveito financeiro.
Nem todo relacionamento que termina com dívidas é golpe. O que diferencia o golpe é a intenção de enganar desde o começo, ou o uso planejado da confiança para obter dinheiro.
Como o golpe costuma acontecer
Os golpistas seguem quase sempre o mesmo caminho:
- Aproximação rápida. Muitos elogios, mensagens o dia inteiro e declarações de amor em pouco tempo.
- História de vida marcante. Viúvo, militar em missão, médico no exterior, empresário bem-sucedido. Sempre alguém admirável e, de preferência, longe.
- Desculpas para não se encontrar. A câmera “não funciona”, a viagem “foi adiada”, o trabalho “não deixa”.
- O primeiro pedido. Pequeno, para testar: uma recarga, um Pix para “resolver um problema no banco”.
- Os pedidos crescem. Taxas de alfândega, hospital, advogado, passagem, investimento “que vai render para os dois”.
- Pressão e culpa. Se você hesita, ele fica magoado, diz que você não confia, ou que vai perder tudo sem a sua ajuda.
Sinais de alerta
Desconfie quando:
- a pessoa se declara apaixonada em poucos dias;
- nunca faz chamada de vídeo ou sempre tem uma desculpa para não aparecer;
- as fotos parecem de catálogo ou de outra pessoa;
- a história tem detalhes que não se encaixam;
- pede segredo sobre o relacionamento;
- fala de dinheiro, mesmo de forma indireta, logo no começo;
- pede que você faça empréstimo, abra conta ou receba dinheiro em seu nome.
Uma dica simples: faça uma busca pela foto da pessoa no Google Imagens. Muitas vezes a foto aparece com outro nome, em outro país.
Golpe do amor é crime?
Sim. Enganar alguém para conseguir dinheiro é crime de estelionato, previsto no Código Penal. Quando o golpe é feito pela internet, por aplicativo ou por telefone, a pena pode ser maior, porque a lei trata esse caso como fraude eletrônica.
Além da parte criminal, a vítima pode pedir na Justiça a devolução do dinheiro e uma indenização pelo sofrimento causado. Os tribunais brasileiros já reconhecem esse direito em casos de estelionato sentimental.
Caiu no golpe? O que fazer agora
Se você já transferiu dinheiro, agir rápido faz diferença.
- Pare de enviar dinheiro, mesmo que a pessoa prometa devolver tudo se você mandar “só mais um pouco”.
- Não apague nada. Guarde conversas, áudios, fotos, perfis, números de telefone e e-mails.
- Reúna os comprovantes de Pix, transferências, boletos e empréstimos.
- Fale com o seu banco no mesmo dia. Se pagou por Pix, peça a abertura do MED (Mecanismo Especial de Devolução). Quanto antes o pedido, maior a chance de o dinheiro ainda estar na conta do golpista.
- Registre um boletim de ocorrência. Pode ser na delegacia ou pela internet, na delegacia eletrônica do seu estado.
- Procure orientação jurídica. Um advogado avalia as provas e indica os caminhos para tentar recuperar o dinheiro e responsabilizar quem enganou você.
Atenção: desde maio de 2026, a investigação do estelionato não depende mais de a vítima pedir, formalmente, que o golpista seja processado. Mesmo assim, registre a ocorrência o quanto antes: quanto mais cedo, maior a chance de rastrear o dinheiro. Se o golpe aconteceu antes dessa mudança, converse com um advogado sobre os prazos do seu caso.
Vergonha não é culpa
É comum sentir vergonha e esconder o que aconteceu da família e dos amigos. Mas o golpista conta com esse silêncio. Quem foi enganado não fez nada de errado: confiou em alguém que planejou a mentira.
Conversar com pessoas de confiança e buscar apoio psicológico ajuda a atravessar esse momento. E falar sobre o assunto também protege outras pessoas.
Como se proteger
- Converse por vídeo antes de criar qualquer vínculo sério.
- Nunca envie dinheiro a quem você não conhece pessoalmente.
- Desconfie de urgências: golpista sempre tem pressa.
- Não faça empréstimo, financiamento ou cartão em seu nome para outra pessoa.
- Conte para alguém de confiança quando um relacionamento novo começar a envolver dinheiro.
Perguntas frequentes
Dá para recuperar o dinheiro? Depende de cada caso: de quanto tempo passou, de como o dinheiro foi enviado e de quem o recebeu. Quanto mais rápido a vítima age, maiores as chances.
E se eu dei o dinheiro por vontade própria? Mesmo assim pode haver golpe. O que importa é se a sua vontade foi conquistada por meio de mentira.
Preciso saber o nome verdadeiro do golpista para registrar o boletim? Não. Registre com as informações que você tem: perfil, telefone, chave Pix e conta que recebeu o dinheiro.
Quem escreve
Advogado, OAB/DF 46.226, fundador da Nardenn Porto Advogados. Atua em Direito de Família, relacionamentos abusivos, violência doméstica e estelionato sentimental, tema em que é pioneiro no Brasil.


